De coração aberto

De coração aberto
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Por sua dedicação, a cardiopediatra londrinense Márcia Thomson acaba de receber o título de cidadã benemérita

 

“Meu trabalho não faria sentido se não tivesse um cirurgião para operar o bebê após o nascimento e para cuidar dele após a cirurgia”, diz Márcia Thomson
Enquanto a filha de seis anos já afirma que vai seguir seus passos e ser médica, a cardiopediatra Márcia Thomson nunca fez planos de cursar medicina a exemplo dos pais, a pediatra Zuleika e o cirurgião torácico João Carlos Thomson. “Não que eles não me influenciassem, pelo contrário, eu via como eles eram felizes na profissão. Mas cheguei a pensar em veterinária”, conta Márcia.

 

 

 

Foi só mesmo quase às vésperas de se inscrever no vestibular que a londrinense tomou a decisão. Dezenove anos depois de se formar pela Universidade Estadual de Londrina, Márcia viu sua escolha se provar ainda mais acertada. Ela acaba de receber o título de Cidadã Benemérita, entregue pela Câmara Municipal de Londrina na semana passada. 

 

 

 

“Estou só começando”, explica Márcia, que se surpreendeu com honraria. “Meus pais receberam os títulos de Cidadãos Honorários – eles não são nascidos em Londrina -, mas eles têm uma longa carreira como médicos. No ano que vem a minha mãe comemora 50 anos de formada”, contabiliza. 

 

 

 

Na carreira de Márcia, foram os últimos 10 anos de trabalho com crianças cardiopatas que inspiraram a vereadora Sandra Graça a sugerir o título. Depois de formada, a cardiopediatra se mudou para São Paulo para a especialização. Em seu retorno à terra natal, uma década atrás, Márcia tornou-se pioneira na realização do ecocardiograma fetal na cidade. 

 

 

 

“É um ultrassom normal, porém, é específico do coração do feto e capaz de definir o tipo de defeito e programar o tratamento e acompanhamento”, explica. “Por conta do título fui rever alguns números e percebi que no meu primeiro ano de volta a Londrina, 2005, realizei 11 exames. No dia anterior à cerimônia de entrega, foram 12, veja quanta diferença”, diz. “Estamos mais perto do que eu imaginava de chegar ao momento em que não nasça nenhuma criança em Londrina sem o diagnóstico”, prevê. “Achei que fosse demorar bem mais”, completa. 

 

 

 

Decidida a se especializar em pediatria, Márcia se mudou para São Paulo. Mais do que estar em contato com o centro de referência no País, a médica também buscava, como ela mesmo diz, “voar com as minhas próprias asas”. “Meu pai era reitor da UEL enquanto eu estudava lá, muitos professores tinham sido alunos dos meus pais. Então eu sentia que tudo o que eu fazia certo era porque era filha dos meus pais. E se errava, ouvia como eu poderia ter errado sendo filha deles.” 

 

 

 

Em São Paulo, consolidou sua paixão pela pediatria se encaminhando para a cardiologia pediátrica. Foi acompanhando um bebê com cardiopatia congênita ao Instituto do Coração (Incor) que Márcia se encantou com a tecnologia disponível e com os resultados do tratamento. “Depois o bebê operou, ele voltou a ter a boquinha rosa como a minha e a sua, antes ela era bem roxa. Quando vi aquilo, me fascinei. Saí de lá decidida sobre o que iria fazer, que era cardiologia pediátrica. Tanto é que só prestei o concurso para o Incor”, lembra. 

 

 

 

Mas depois de oito anos na capital paulista, o coração falou mais alto e ela voltou para a cidade natal. “Tive medo de não me adaptar, tinha a questão profissional, eu estava muito feliz profissionalmente. E também sentia falta de estar perto da família”, conta. “Mas sinceramente voltei porque casei, foi ele que me trouxe de volta para cá”, entrega Márcia. “Ele era meu amigo de adolescência e um dia foi me visitar em São Paulo e a gente se apaixonou. Isso foi em março, em novembro eu já estava de volta a Londrina.” 

 

 

 

“E dei sorte porque abriu um concurso para o HU assim que eu cheguei”, lembra. “Como tinha poucos pacientes no começo, ia muito com meu marido para a fazenda, pude curtir isso. Foi um outro lado da minha vida. Aos 32 anos, tive um recomeço”, relata. 

 

 

 

Sobre o título recém-recebido, Márcia fala sobre “a grande honra, mas também a grande responsabilidade de carregá-lo. Sinto o peso, mas ao mesmo tempo motivada a seguir o trabalho com dedicação, seriedade e muito amor. Vejo mais como uma injeção de motivação porque eu acho que estamos precisando muito, estamos em um momento de crise ética, moral e econômica no País, então para mim teve esse aspecto positivo de seguir em frente”, explica. 

 

 

 

“Eu perguntei para a Sandra Graça se não poderia dividir o título”, conta Márcia. “Meu trabalho não faria sentido se não tivesse um cirurgião para operar o bebê após o nascimento e para cuidar dele após a cirurgia”, explica. Segundo a cardiopediatra, são 25 mil bebês cardiopatas que nascem no Brasil a cada ano, sendo que 7.500 casos são críticos, exigindo cirurgia na primeira semana de vida. 

 

 

 

Em Londrina, Márcia é madrinha da Associação de Assistência à Criança Cardiopata Pequenos Corações. E foi para os pequenos que a cardiopediatra dedicou a festa na homenagem. “Em geral, quem recebe o título faz um coquetel. Eu preferi fazer uma festa para as crianças.”

 

Karla Matida

 

Reportagem Local
Folha de Londrina
Folha Gente
28/06/2015
Foto: Celso Pacheco
em frente à clínica

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